Chuck Hipolitho

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  • Ramones - Road To Ruin (1978)

    Não lembro mais a primeira vez que ouvi o Road To Ruin dos Ramones, mas nas festinhas que eu ia com uns dez anos já tocava esse disco - pra dançar agarradinho era Needles And Pins e Questioningly e para quebrar algumas coisas era Just Wanna Have Something To Do ou I Wanna Be Sedated. Eu lembro disso e da capa.

    Solitariamente, na mesma época eu ganhei do meu pai: a trilha-sonora do filme La Bamba, com Ritchie Valens e Los Lobos. Foi com meu primeiro disco e foi com ele que eu aprendi a gostar de rock.

    Era assim: meus amigos gostavam de Ramones, as meninas gostavam de música dance ridícula tipo Smash Hits e todo mundo gostava do Sigue Sigue Sputnik. Eu me sentia um pouco sozinho gostando do La Bamba. Aí eu já tinha uns onze anos.

    Mudei de escola e as festinhas não tocavam mais Ramones. Na verdade, a turma da escola nova não fazia festinhas. A escola era municipal e o pessoal gostava de outras coisas… o Ricardinho gostava de Sepultura e Ratos De Porão e o Fábio Sujeira, que gostava de qualquer coisa que fosse anti-música, tinha capas de caderno que eram feitas com fotos de gente morta - pense “Faces Da Morte”. Eram meu novos amigos. 

    Fui ter banda com uns meninos da outra sala, na sétima ou oitava série. Eu estava começando a gostar de rock socialmente e o que pegava era o Guns’N’Roses. O Nirvana chegou, mas de cara eu não entendi e eu tinha uma banda que era “cover” do Guns.

    Tinha banda mas não tinha bateria, então vendi um aquário e comprei a bateria. Óbvio que as músicas do Guns estavam completamente além da minha capacidade como baterista, eu nem sabia para que serviam aqueles dois pratos que ficam um em cima do outro. Mas a intro de “Paradise City”, aquilo eu sabia fazer. 

    Os meninos que tocavam comigo eram gente boa mas eram um desastre tocando, e eu era pior. Mas foram eles que me apresentaram a possibilidade de ter banda e de tocar rock pesado.

    A banda meio nem existiu e comecei a andar com o Estênio, que gostava de Ramones, RDP, DFC e Muzzarelas. No primeiro colegial eu mudei de escola de novo, e mudei de turma.

    Foi quando comecei a ouvir Ramones de verdade. A Lu, minha vizinha que era três anos mais velha e filha da família de mafiosos local, me achava legal e me deu uma fita com o Loco Live e o Leave Home. Também me emprestou o Rocket To Russia em vinil e pronto, já era. O Road To Ruin também apareceu para mim em algum momento como disco de vinil, e eu lembrei daquelas festas de quando eu tinha 10/11 anos. 

    Aquilo eu conseguia tocar na bateria, sendo que Needles And Pins era o nível máximo de dificuldade! Tinha amigo meu aprendendo a tocar Rush e Deep Purple. Na época me afastei de uma galera. 

    Road To Ruin é hoje o meu segundo disco favorito dos Ramones (o primeiro é o Rock To Russia e merece outro texto) mas foi o elo entre o La Bamba e o tipo de música que eu viria a me apaixonar no futuro.

    O álbum saiu em 1978 e é o quarto disco de estúdio dos Ramones e o primeiro com o baterista Marky Ramone no lugar de Tommy. Road To Ruin na minha opinião tem um som mais maduro, mais organizado, mais sério, mais direto e também mais pop. É um disco que aponta um potencial incrível.

    É a primeira capa que não apresenta uma foto da banda, mas um desenho, creditado à John Holmstron, o mesmo que fez os desenhos do encarte e contra-capa do Rocket To Russia.

    O disco tem a incrível duração de 31 minutos, distribuídos em 12 músicas. Foi produzido por Tommy Ramone (que assina como Tommy Erdelyi) junto com Ed Stasiun - que também gravou e mixou o disco e que a partir de então se tornaria peça importante dentro da família Ramone, uma espécie de responsável pela direção artística, conceitual e musical da banda. É um disco que aponta para possibilidades incríveis, pé no chão e sofisticado. Música de vanguarda.

    Na minha opinião Road to Ruin deu mais segurança à banda. E foi essa nova confiança e credibilidade que os levou a trabalhar com Phil Spector em End of the Century, na minha opinião, o maior equívoco na carreira dos Ramones, mesmo sendo um dos meus favoritos da discografia deles. Eu acho que o equívoco foi optar por uma super-produção ao invés da simplicidade característica, faltou foco na composição, na personalidade e na sonoridade da banda. Uma megalomania que fez com que a banda se perdesse de forma quase irreversível - obviamente o End Of The Century merece um texto individual.

    Voltando à Road to Ruin: todos na banda apresentam uma performance incrível. Para mim, é a melhor performance do Joey até Mondo Bizarro.

    A entrada de Marky na banda deixou o som da bateria mais limpo. Seu groove é bem diferente do de Tommy, e Marky se impõe de uma forma natural, tentando equilibrar e aprimorar o estilo único criado por Tommy. É o primeiro disco dos Ramones em que as músicas tem viradas de bateria e algumas se tornaram clássicas, marca registrada do estilo de Marky. A diferença está principalmente na relação bumbo + caixa e no uso do prato de condução.

    As guitarra e o baixo soam menos entupidos também. Uma sábia decisão essa de ter Ed Stasiun na produção.

    Alguns comentários específicos sobre o que cada música representa para mim até hoje. 

    • Lado A

    I Just Want To Have Something To Do 

    Quer aprender a tocar rock na guitarra? Quer aprender como se escreve uma canção simples e poderosa? Quer aprender como deve ser um refrão de verdade? Quer aprender a tocar rock na bateria? Quer aprender a tocar rock no baixo? Comece por essa música. Autêntica música de três acordes dos Ramones. É a primeira que apresenta uma agressividade diferente. Amo a simplicidade da canção, amo como a segunda estrofe tem um pedaço da letra diferente, amo como a terceira é igual a segunda, amo como os “Wait! Now!” na segunda vez acontecem quatro vezes e não duas como na primeira, amo os feedbacks de guitarra que acontecem no final da música, amo a ponte mais simples do mundo para a entrada do refrão, amo o refrão, amo como Joey canta o refrão, amo a virada que o Marky dá para chamar o refrão, amo a levada de bumbo direto no fim da música e por mim, AMO aquela arranhada de palheta no final - coisa que virou marca registrada do Johnny. Acho que é a música dos Ramones que mais me marcou na vida, simplesmente porque é perfeita e porque foi a primeira a chegar. Imagino que ter ouvido isso pela primeira vez na época deve ter sido tão excitante quanto “Blitzkrieg Bop” para quem estava lá quando foi lançada. “I Just Want To Have Something To Do” é a música que toco quando vou passar testar um amplificador ou uma guitarra. Para mim é uma gravação perfeita e é do meu Ramone favorito, o Joey. 


    I Wanted Everything 

    Quem nunca!? Depois de aprender a tocar “I Just Want To Have Something To Do”, aprenda a tocar “I Wanted Everything” e verá que as coisas não são tão fáceis como imaginava. A música tem uma lógica estranha e quando entram as estrofes é uma delícia. 


    Don’t Come Close 

    Minha segunda favorita no álbum. Para mim é o modelo perfeito de música pop/rock. Me baseio muito nela para compor ou produzir algo. Tudo nela me encanta, principalmente o as estrofes, o riff de guitarra nos arranjos de introdução e nas estrofes, e o solo. O solo de “Don’t Come Close” é o suficiente para eu continuar ignorando a presença de guitarristas virtuosos como Satriani e Malmstenn no mundo enquanto estiver vivo. Outra música do Joey, e ao vivo eu acho que ficava uma merda. 


    I Don’t Want You

    Que puta rock, amo o riff de guitarra. Um momento muito bom no disco. Um das minhas favoritas da banda. 


    Needles And Pins

    Tududu-tutu… e aí a música não entra no bumbo, entra na caixa, sem prato. Obviamente uma banda que entende de Ringo Starr. Não interessa o quão foda você é na bateria, não interessa se sabe tocar Rush ou é um melhor baterista de Jazz do mundo, toque a virada de Needles And Pins para mim e eu te digo se pode tocar na minha banda. Ouvi muito essa música, muito mesmo. Quando descobri que era um cover fui atrás da original e fiquei com a dos Ramones. Amo a inversão tônica depois da parte C. Joey Ramone humilha cantando, quanta personalidade. 


    I’m Against It

    Punk rock negativo. Dee Dee deve ter feito em 15 minutos. Depois de tanto “I don’t wanna” no passado ele resolver escrever uma que é “I don’t like”, e aí sobrou pra todo mundo. Perfeita para fechar o lado A. 


    • Lado B

    I Wanna Be Sedated 

    Road To Ruin é o disco cujo lado B abre com “I Wanna Be Sedated”. Aprenda a tocar guitarra como Johnny nessa música e as garotas vão olhar para você. Talvez a música mais popular dos Ramones depois daquela “Hey! Ho! Let’s Go!”. A bateria não tem virada, o solo é de uma nota só, a música sobe o tom do meio para o fim, aquele final com os “pa-pa-papa”… é um hino. Você não precisa nem gostar de rock para gostar dela, não precisa nem gostar de música. “I Wanna Be Sedated” é um míssil do qual até as crianças gostam.


    Go Mental

    Um das músicas que o Johnny gosta, Ramones clássico. Acho ela meio boba e acho que é a que menos gosto. Tem aquele solinho no final… sei lá, talvez pudesse ter ficado de fora e o disco seria ainda mais direto e bonito. Mas é ela que abre caminho e cria o clima para a próxima. 


    Questioningly

    Amo, mas por alguma razão nem considero uma música dos Ramones. Uma balada que não é do Joey, mas do Dee Dee. Também entendo que a razão de não ser uma das favoritas do Johnny. A meninas adoram essa música. 


    She’s The One

    Outra música desafio para quem quer aprender a tocar Ramones. Imagino que “She’s The One” seria um ótimo teste para um novo integrante. A primeira coisa que o Joey canta é “Yeah, yeah, she’s the one!” daquele jeito que gruda para sempre na cabeça. Infalível.


    Bad Brain

    Música que inspirou o nome dos Bad Brains. 


    It’s A Long Way Back

    Teria sido originalmente gravada no Rocket To Russia pois existe uma demo com o Tommy da época. Uma das menores letras dos Ramones, prefiro a versão que entrou no Road To Ruin e é com ela acaba o disco.  

    ***

    Os Ramones sabiam que eram a banda de rock mais legal do mundo quando viram e ouviram esse disco pronto. Minha teoria é que os Ramones demoraram demais para encontrar o produtor ideal. Mas isso é papo pra outro texto.

    • setembro 18, 2012 (11:58 am)
    • 15 notes
    • #Ramones
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